O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, durante pronunciamento na Casa Branca, na terça-feira (3) — Foto: Win McNamee/Getty Images/AFP

Com retirada das tropas americanas do Afeganistão, o Talibã rapidamente dominou o país e assumiu o controle de Cabul, a capital. Mulheres temem perder os direitos conquistados nos últimos 20 anos. Para Biden, cabe aos afegãos lutar para impedir retrocessos.

“Não fomos ao Afeganistão para formar uma nação”. O presidente dos EUA, Joe Biden, usou essa frase como uma das justificativas para retirar as tropas americanas do Afeganistão num momento em que o país estava ainda longe de consolidar um regime democrático e continuava sob ameaça de retorno do Talibã.

Pouco depois de iniciada a saída dos militares americanos do país, que seria concluída até o dia 31 de agosto, combatentes do grupo fundamentalista avançaram por todo o território e tomaram a capital, Cabul, no domingo (15).

O retorno do Talibã ocorre no mesmo ano do aniversário de 20 anos do ataque ao World Trade Center, em Nova York, e ao Pentágono, em Washington, em 11 de setembro de 2001. Os ataques foram orquestrados por Osama Bin Laden, líder da rede Al-Qaeda. Bin Laden na época recebia apoio e asilo do Talibã que governava o Afeganistão.

Em resposta, os EUA e aliados iniciaram a Guerra do Afeganistão e retiraram o Talibã do poder.

Quase 20 anos depois, tudo parece retornar ao ponto de partida, com o grupo fundamentalista de volta ao comando, mulheres temendo por suas vidas e seus direitos, e civis contrários ao grupo islamista lotando o aeroporto internacional de Cabul, tentando fugir do país.

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Para críticos à retirada das tropas, esse cenário é uma humilhação a Biden e aos EUA. No entanto, o presidente americano não parece disposto a voltar atrás na decisão.

Na verdade a retirada das tropas americanas do Afeganistão foi acordada pelo ex-presidente Donald Trump. Em fevereiro de 2020, os Estados Unidos firmaram em Doha, no Catar, um acordo com lideranças Talibã, que previa a retirada dos soldados americanos daquele país. Pelo seu lado, o Talibã se comprometia a combater a Al-Qaeda e a qualquer outro grupo extremista, como o autoproclamado, Estado Islâmico, que chegou a ter forte presença no Afeganistão.

Mas quais os argumentos de Joe Biden para “abandonar” o Afeganistão e permitir que o Talibã retorne a todo vapor? O presidente tem repetido cinco justificativas para deixar os afegãos à própria sorte e encerrar de vez uma guerra que dura 20 anos.

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Saiba quais são elas:

1. ‘Já cumprimos a missão’

Joe Biden sempre foi crítico da presença prolongada de tropas americanas no Afeganistão. Para ele, a missão dos EUA com essa guerra deveria se resumir a: abater Osama Bin Laden e impedir que o Afeganistão se tornasse base para grupos radicais contrários aos EUA.

Ou seja, na visão de Biden, não seria papel dos EUA permanecer no país até que ele fosse reconstruído e tivesse uma estrutura institucional sólida, com regime democrático estável.

“Os Estados Unidos já cumpriram sua missão no Afeganistão: pegar os terroristas que nos atacaram no 11 de setembro, garantir punição a Osama Bin Laden e degradar a ameaça terrorista, para impedir que o Afeganistão se tornasse base para que ataques contra os EUA fossem planejados”, disse Joe Biden em julho.

“Nós alcançamos esses objetivos. Foi para isso que fomos lá.”

De fato, Osama Bin Laden foi morto numa operação da Marinha dos EUA em maio de 2011, e diversos integrantes do alto escalão da Al-Qaeda também foram mortos ou detidos desde o início da guerra.

Mas o regime que deu cobertura para as ações da Al-Qaeda, o Talibã, continua inegavelmente forte. O governo afegão que até domingo 15 de agosto era dirigido pelo então presidente eleito, Ashraf Ghani, nunca chegou a ter controle total do país. O Talibã nunca deixou de operar abertamente em certas áreas.

Sem as tropas americanas, os combatentes conseguiram avançar sem resistência pelas grandes cidades do país. As forças militares afegãs, que haviam sido treinadas pelos americanos, se retiraram sem lutar em grande parte dos distritos, inclusive na capital, Cabul.

O presidente afegão, Ashraf Ghani, fugiu do país, argumentando que fez isso para evitar “derramamento de sangue”, e homens armados tomaram o palácio presidencial sem qualquer dificuldade.

A capital era a única grande cidade ainda nas mãos do governo civil. Com a conquista desse último refúgio, o Talibã passou a dominar praticamente o país todo novamente.

A pergunta que fica é: com a volta do Talibã ao poder, o governo americano realmente pode afirmar que alcançou o objetivo de impedir que o Afeganistão se tornasse base para grupos radicais e eventuais ataques aos EUA?

Combatentes do Talibã assumem o controle do palácio presidencial afegão em Cabul, capital do Afeganistão, após o presidente Ashraf Ghani fugir do país em 15 de agosto de 2021 — Foto: Zabi Karimi/AP

2. ‘Cabe aos afegãos decidir seu futuro’

Ao falar sobre os motivos da retirada das tropas do Afeganistão, o presidente Biden deixou claro considerar que os Estados Unidos não devem assumir para si a responsabilidade pela democracia, o respeito aos direitos humanos e a estabilidade no pais.

“Nós não fomos ao Afeganistão para formar uma nação. É direito e responsabilidade exclusiva da população afegã decidir seu futuro e como querem administrar seu país”, declarou.

Ao estabelecer setembro e, posteriormente, o fim de agosto como data para a retirada total das tropas americanas no Afeganistão, Biden declarou que os EUA já haviam feito a sua parte treinando soldados afegãos, garantindo armas e financiamento para o regime civil.

“Juntamente com aliados da Otan e parceiros, nós treinamos e equipamos quase 300 mil membros ativos da Força Nacional de Segurança Afegã, e muitos outros que não estão mais na ativa”, declarou Biden em julho, em discurso feito para explicar os planos de retirada das tropas.

“Nós fornecemos aos nossos parceiros afegãos todos os instrumentos. Deixe eu enfatizar, todos os instrumentos, treinamento e equipamentos militares modernos. Vamos continuar a financiar e dar equipamentos. E vamos garantir a capacidade de manter a força aérea”, declarou.

Enquanto Biden destacava o treinamento dado pelos EUA aos militares afegãos, especialistas alertavam que as forças do Afeganistão, sozinhas, não seriam capazes de impedir o avanço do Talibã.

As previsões dos analistas se confirmaram e agora boa parte do arsenal militar doado pelos EUA podem cair nas mãos do grupo radical islâmico.

Talibãs em Farah, uma capital de província do Afeganistão, em 11 de agosto de 2021 — Foto: Mohammad Asif Khan/AP

3. ‘Estou cumprindo um acordo’

Outro argumento de Biden para retirar as tropas americanas do Afeganistão é a necessidade de cumprir acordo firmado pelo governo do ex-presidente Donald Trump com o Talibã.

Assinado em fevereiro de 2020, o acordo previa que os EUA retirariam suas tropas do país até maio de 2021. Em troca, o Talibã não atacaria integrantes de forças internacionais. A saída total das tropas acabou sendo adiada mas, quando tomou posse em janeiro de 2021, Joe Biden declarou que não voltaria atrás no acordo firmado por Trump e retiraria as tropas até 11 de setembro de 2021, data dos 20 anos do ataque às Torres Gêmeas, em Nova York.

Posteriormente, Biden antecipou o prazo final de saída dos militares americanos para agosto. Ao justificar a decisão, Biden declarou, em julho, que o acordo firmado pelo ex-presidente dos EUA evitou mortes de soldados americanos.

“Se eu tivesse anunciado em abril que os EUA iriam voltar atrás no acordo feito pela última administração, os Estados Unidos e forças aliadas permaneceriam no Afeganistão e o Talibã voltaria a atacar as nossas tropas”, declarou Biden.

“Ficar significaria mortes entre as tropas dos EUA. Homens e mulheres americanas no meio de uma guerra civil.”

Ou seja, segundo Biden, uma vez tendo firmado o acordo, os EUA ficariam mais expostos do que nunca se permanecessem no território. O presidente anunciou que ofereceria aos afegãos que trabalharam para o governo americano nos últimos 20 anos a possibilidade de morar nos EUA, para que não fossem alvos de ataques.

Mas milhares de pessoas que se dedicaram a construir um regime civil desde o início da guerra agora temem ser mortos ou perder seus direitos num regime controlado pelo Talibã.

Eles acusam o governo americano de ter abandonado a população à própria sorte, principalmente as mulheres que, num regime fundamentalista islâmico, podem voltar a ser impedidas de estudar, trabalhar ou até andar pelas ruas sozinhas.

4. ‘Ameaça terrorista vai além do Afeganistão’

Biden também justificou a retirada das tropas dizendo que os EUA precisam utilizar recursos e efetivo para combater o terrorismo de maneira mais estratégica. Segundo ele, células e grupos terroristas se deslocaram para além do Afeganistão.

“Os Estados Unidos não podem se dar ao luxo de se manter presos a políticas que respondem a um mundo que existia há 20 anos. Precisamos lidar com as ameaças que se apresentam hoje. A ameaça terrorista atualmente se espalhou para além do Afeganistão”, argumenta.

“Portanto, estamos reposicionando recursos e o combate ao terrorismo para alcançar as ameaças onde elas estão maiores hoje: sul da Ásia, Oriente Médio e África”, disse.

Biden ainda argumentou que os EUA precisam reservar recursos para fazer frente à competição com a China.

“Temos que focar em fortalecer os principais pontos fortes da América para enfrentar a competição estratégica com a China e outras nações, que realmente vai determinar nosso futuro”, disse ele.

5. ‘Já tivemos gastos e mortes demais’

Biden tem mencionado ainda, como argumento pela retirada das tropas, o número de mortes de militares americanos e os gastos que os EUA tiveram com a guerra.

“Depois de 20 anos, trilhões de dólares foram gastos treinando e equipando as forças de Segurança Nacional e Defesa afegãs. 2.448 americanos foram mortos, 20.772 foram feridos e milhares de outros voltaram às suas casas com traumas que afetam sua saúde mental”, argumentou.

“Eu não vou mandar uma nova geração de americanos para a guerra no Afeganistão sem que haja uma expectativa razoável de alcançar um resultado diferente.”

Mas o custo da guerra em perda de vidas foi muito maior para os afegãos. Desde o início do conflito, há 20 anos, mais de 66 mil militares afegãos e 47,2 mil civis morreram. Estima-se que mais de 50 mil guerrilheiros do Talibã tenham sido mortos no conflito.

Porta-vozes do Talibã afirmam que não vão matar ou se vingar das pessoas que apoiaram e atuaram no regime civil que governou o Afeganistão durante a ocupação americana. Mas as memórias do período em que o grupo islamista esteve no poder deixam margem para temer que o oposto aconteça.

Questionado em julho, numa entrevista coletiva, se os EUA seriam responsáveis pelas mortes de civis se o Talibã ocupasse o país após a retirada das tropas, Biden respondeu:

“Não, não, não. Cabe ao povo do Afeganistão decidir que governo eles querem, não a nós impor um governo a eles.”

Na mesma entrevista, Biden foi perguntado por uma jornalista afegã sobre o que ele teria a dizer às mulheres do país, que temem perder todos os direitos que conquistaram. Em resposta, o presidente americano contou que, há um tempo, visitou uma escola para meninas no Afeganistão e recebeu um apelo de uma menina de 14 ou 15 anos para que os EUA não deixassem o país.

“Vocês não podem ir embora, não podem. Eu quero ser médica e, se vocês forem embora, eu nunca vou conseguir ser médica”, disse a menina, segundo o relato de Biden.

O presidente disse que o apelo foi de “partir o coração” e, em resposta à pergunta da jornalista, afirmou que o papel dos EUA foi cumprido ao treinar e financiar as forças de segurança afegãs para que impedissem retrocessos.

Com o Talibã no poder, no entanto, o futuro das mulheres do país é incerto e o sonho da menina de se tornar médica parece ter se tornado distante.

Fonte: G1 Globo

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