Na manhã do dia 24 de março de 2015, um Airbus A320 da companhia aérea Germanwings, controlada pela Lufthansa, caiu na região dos Alpes. Os detalhes descobertos nos dias subsequentes chocaram o mundo. De acordo com o áudio da caixa-preta do avião, o copiloto, Andreas Lubitz, de 28 anos, havia deliberadamente derrubado o voo 4U9525.

Aproveitando-se da saída do comandante, Andreas trancou o colega para fora da cabine de controle e acionou o botão de descida da aeronave. Durante 10 minutos, tempo que o avião demorou para se chocar contra as montanhas, o copiloto permaneceu em silêncio, sem pedir ajuda nem declarar emergência.

Na gravação, é possível ouvir apenas sua respiração acelerada. O primeiro pensamento das autoridades alemãs foi que o acidente teria sido um ato terrorista. Três dias depois, promotores da cidade de Düsseldorf encontraram na casa de Andreas um atestado médico indicando que o copiloto deveria estar afastado do trabalho, em tratamento para depressão, no dia da queda da aeronave.

Tudo sugere que ele escondeu o fato da companhia, e a doença cobrou um preço alto: Andreas suicidou-se levando 150 pessoas consigo.

Claro que esse é um caso extremo. Mas dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que, assim como o aviador, 322 milhões de pessoas sofriam de depressão ao redor do mundo em 2015 — número que aumentou 18,4% desde 2005.

No Brasil, cerca de 5,8% da população têm a doença, o que faz do país o campeão de casos na América Latina. Ainda de acordo com a OMS, até 2020 o transtorno mental será a enfermidade mais incapacitante mundialmente.

É consenso entre os especialistas que esses dados alarmantes são fruto tanto da evolução da medicina, o que possibilita detectar um número maior de casos, como também do crescimento da incidência do problema. “As pessoas começaram a falar sobre o assunto e a buscar ajuda, o que permite que se diagnostique mais. Mas há também um aumento real devido ao estresse crônico”, diz Mário Louzã, psicólogo de São Paulo.

Do ponto de vista clínico, a depressão se diferencia de uma simples tristeza por durar mais tempo e implicar uma queda no nível de neurotransmissores, substâncias químicas que estabelecem a comunicação entre os neurônios.

A doença surge de uma combinação entre questões genéticas e ambientais. “À hereditariedade, soma-se o fato de que algumas pessoas são mais vulneráveis aos estressores do cotidiano. Além disso, as mulheres são pelo menos duas vezes mais suscetíveis à depressão por causa da flutuação hormonal”, afirma Carmita Abdo, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), de São Paulo.

O trabalho como gatilho

O mundo instável e cheio de opções em que vivemos tem sua parcela de responsabilidade na criação de gerações mais angustiadas. “Perdemos as grandes referências: Estado, religião, justiça, uma empresa onde trabalharíamos a vida toda”, afirma Dorothee Rudiger, professora de direito na Universidade Católica de Santos, em São Paulo.

Ao mesmo tempo, há muita liberdade de escolha. “Essa incerteza e medo levam a uma angústia profunda.” E isso se agrava, é claro, quando o local de trabalho se mostra problemático. Ambientes competitivos, com maior pressão por resultados, elevam o risco de desenvolver a doença.

Operadores de telemarketing, bancários e profissionais da área de saúde são os mais propensos a ter quadros depressivos, mas a doença não se restringe a determinado setor, carreira ou nível hierárquico.

Só em 2016, por exemplo, a Previdência Social registrou o afastamento de 75 300 trabalhadores por causa de depressão, cerca de 37,8% do total de licenças por doenças mentais. “O desequilíbrio entre o que é cobrado dos funcionários e o apoio que a empresa oferece faz com que as pessoas sofram, e isso causa uma degeneração psíquica. Muitas vezes, o estresse a que o indivíduo é submetido é tão grande que ele não consegue se recuperar”, diz João Silvestre, diretor de relações internacionais da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt), de São Paulo.

Foi a alta carga de tarefas, acompanhada de uma equipe reduzida e de uma forte cobrança por resultados, que fez com que o publicitário Edson Santos, de 34 anos, desenvolvesse um quadro depressivo. Em 2012, o paulista era supervisor de marketing em uma multinacional alemã e, durante dois anos, viveu uma rotina que chegava a 20 horas diárias no escritório, sem férias. “Não tinha mais tempo para a família ou para os amigos”, diz.

Aos poucos, Edson começou a se isolar dos colegas, e os projetos que antes o motivavam perderam o sentido. Em uma das crises mais agudas, sentiu um desespero inexplicável. “Tive vontade de fugir, de não voltar mais ao trabalho, de ir para o banheiro chorar”, afirma.

O quadro teve impacto em seu rendimento e, após alguns meses, o gestor de Edson o chamou para uma conversa. “Ele estava preo­cupado, apontou que até mesmo o jeito de me vestir havia mudado e eu nem tinha percebido. Sugeriu que eu procurasse ajuda.” Edson seguiu o conselho e, quando se consultou com o psiquiatra, recebeu o diagnóstico de depressão. Mas aceitar não foi fácil. “Eu tinha um bom salário, uma família estruturada e me perguntava por que estava deprimido”, diz.

Mesmo sem entender as causas, seguiu o tratamento. Além da terapia e dos remédios, Edson voltou a reservar um tempo para si mesmo, praticando esportes e adotando um cão. As mudanças o ajudaram a compreender o processo que o levou ao quadro depressivo — e como a rotina workaholic contribuiu para isso.

Hoje, no cargo de coordenador em outra multinacional, ele diz que o apoio da empresa foi crucial. “Eu tinha vergonha de contar e apenas alguns colegas sabiam, mas eles me ajudaram. Como profissional de marketing, fiquei limitado, sem criatividade. Eles me deram suporte”, afirma Edson.

Falta de apoio

Casos como o de Edson, em que a empresa, gestores e colegas são compreensivos e ajudam os profissionais que passam por crises de depressão infelizmente ainda são raros. “Uma liderança humana, que enxergue o funcionário além do número do crachá é exceção”, afirma Fátima Macedo, diretora da Mental Clean, consultoria psicológica para empresas, de São Paulo.

Na maioria das situações, quem está ao redor não se dá conta de que aquele profissional precisa de ajuda — ainda mais em organizações com chefias ultrapassadas, que continuam a carregar aquela visão de “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

Foi o que a fisioterapeuta Thaís Romanelli, de 36 anos, teve de enfrentar até o fim de 2016, quando trabalhava em um hospital público de São Paulo. Ela entrou na empresa assim que saiu da faculdade e, durante 13 anos, permaneceu na instituição. Embora percebesse que a relação já estava desgastada, as coisas se intensificaram no ano passado. “Fui transferida de unidade e de chefe, sem muitas explicações, e não me adaptei”, diz Thaís.

Como o atendimento nesse novo ambiente se limitava a um dia da semana, a fisioterapeuta continuou levando a situação, sem perceber quanto isso lhe fazia mal. Nesse meio-tempo Thaís venceu, ao lado de uma colega, um concurso para startups na área da saúde e criou a Soulvox, plataforma que cria vozes para pessoas que não conseguem falar, o que significou cuidar de duas carreiras. “Todos os dias eu ia dormir às 3 horas da manhã, acordava às 7, ia trabalhar, voltava e continuava me dedicando às pesquisas. Sem contar os fins de semana virados”, diz.

O problema chegou ao ápice quando a gestora de Thaís pediu a ela que trabalhasse mais um dia na unidade onde não havia se adaptado. “Eu já estava cansada da rotina entre empreendedora e empregada. Junto com o esgotamento que vinha acumulando, tive uma crise de choro.” Mesmo argumentando que não havia se integrado ao novo local, não houve jeito. “Eu me senti desrespeitada. Foi a primeira vez que me posicionei sobre algo que estava me incomodando e fui completamente ignorada”, afirma a fisioterapeuta. Percebendo que não estava bem, resolveu procurar ajuda.

Thaís foi diagnosticada com depressão leve, e a psiquiatra foi taxativa quanto ao motivo que a levou àquele estado: excesso de trabalho. “Comecei a me perguntar: vale a pena ficar tomando remédio e prejudicando minha saúde por causa daquele lugar?”, diz.

Após o afastamento médico de um mês, ela deixou o emprego. “No fim de 2016, percebi que ainda não estava 100% e aproveitei o tempo livre para me dedicar mais à Soulvox.” Hoje, mesmo não tendo ainda reequilibrado as finanças, ela não se arrepende da mudança. “Foi a melhor decisão que tomei. Sempre fui movida por propósito, mas, num cenário em que eu atendia quatro pacientes quase ao mesmo tempo, era impossível. Com minha empresa, recuperei a paixão pelo que faço”, afirma Thaís.

O custo da doença

Muita gente acha que a depressão é apenas um problema de saúde, mas é mais do que isso. O distúrbio representa perdas para a economia, para as empresas e para a sociedade. Segundo um estudo de 2016 da London School of Economics, os prejuízos relacionados à produtividade causados pela doença chegam a 246 bilhões de dólares por ano em todo o mundo.

No Brasil, esse valor alcança 63,3 bilhões de dólares, menor apenas do que nos Estados Unidos, que têm uma perda anual de 84,7 bilhões de dólares. Por aqui, a doença é a terceira maior causa de afastamentos pelo INSS. “A depressão tem custos diretos e indiretos. O absenteísmo e o presenteísmo são alguns dos custos sociais. Mas ela também onera os cofres públicos nas áreas de saúde e previdência social”, diz Quirino Cordeiro, coordenador de saúde mental do Ministério da Saúde.

Algumas empresas já começaram a fazer essa conta e perceberam que prevenir é melhor do que remediar. A rede de laboratórios de medicina diagnóstica Fleury é uma delas.

Em 2013, a companhia mapeou o perfil de saúde de 65% de seus funcionários — 7 000 pessoas na época. O resultado foi assustador. Os índices de saúde mental dos empregados estavam piores do que, por exemplo, os dos policiais civis, dos professores ou até de pessoas que trabalham em UTI. “Esses números alertaram para o estresse na empresa. Com isso, a saúde mental, ao lado do sedentarismo e de doenças osteomusculares, tornou-se um de nossos principais alvos de atua­ção”, afirma Thiago Rodrigues, consultor de gestão em saúde do Fleury.

A empresa passou a oferecer sessões de atendimento psicológico nos diversos ambulatórios do grupo. Os casos mais graves são encaminhados a outros profissionais de saúde mental para tratamentos mais longos. “Os trabalhadores devem procurar o serviço ou o RH pode indicar uma terapia de grupo quando detecta algum problema coletivo”, diz Thiago.

Nos últimos três anos, o projeto realizou 1 397 atendimentos e diminuiu o tempo de afastamento por doenças mentais em 29,5 dias — uma economia anual de quase 97 000 reais. “Atuamos no setor de serviços, então o preço de uma baixa produtividade é altíssimo. Uma pessoa deprimida, ansiosa, não consegue atender bem, e aquele cliente pode nunca mais voltar. E somos uma companhia de saúde — esse cuidado precisa ser um valor aqui dentro.”

Sem estigmas

Além de ofercer suporte e trabalhar na prevenção da depressão, as empresas precisam criar ambientes em que os funcionários possam falar abertamente sobre a doença, sem que o problema seja rotulado como “frescura”. “As doenças mentais sofrem preconceito porque não são visíveis. Até pouco tempo atrás, essas pessoas eram deixadas longe dos olhos da sociedade”, diz Roberto Debski, psicólogo clínico de São Paulo.

Se um profissional com depressão encontrar esse mesmo tipo de pensamento em seu local de trabalho, provavelmente vai esconder o problema de gestores e colegas, agravando o quadro. Isso pode desencadear uma série de outras enfermidades, como doenças cardiovasculares, autoimunes e gástricas.

A Sprinklr, empresa de softwares de gestão de mídias sociais, de São Paulo, dá um bom exemplo de como lidar com o problema. Ali, o tema saúde mental é tão natural que um subsídio à terapia faz parte do pacote de benefícios dos 150 funcionários.

Há um ano, a organização fez uma parceria com a Zenklub, plataforma de tratamento psicológico via videoconferência, e passou a custear 40% das sessões. “No começo, os funcionários estranharam, mas hoje é tão normal que algumas pessoas tiram um horário durante o dia, avisam o chefe e fazem a sessão no escritório”, diz Bruno Pereira, diretor de recursos humanos da Sprinklr.

Encontrar um ambiente acolhedor e contar com a compreensão dos colegas e gestores pode fazer com que, em alguns casos, o trabalho tenha um potencial terapêutico e ajude na recuperação do quadro depressivo. “A carreira exerce um papel muito importante, está ligada à nossa identidade. A profissão significa tanto que se confunde com nossa vida. Quando fica doente e precisa deixar sua atividade, você perde seu papel social”, diz Quirino Cordeiro, do Ministério da Saúde. “A pessoa se sente incapaz e não sabe mais quem ela é. Por isso, devemos zelar pela reinserção profissional após uma crise depressiva.”

A compreensão da empresa em rea­dequar o trabalho e as metas foi fundamental para a recuperação do supervisor de comércio exterior Ri­cardo Esteves, de 41 anos. Funcionário há 18 anos de uma companhia de logística, em São Paulo, Ricardo diz que sempre apresentou traços da doença, mas nunca havia dado muita atenção a isso até que, em 2008, um quadro sério de depressão sobreveio repentinamente.

Durante vários dias, não conseguia se levantar da cama ou se alimentar e apresentou tendências suicidas. “Queria enfiar o carro da empresa na contramão”, diz. No trabalho, a doença se traduziu em presenteísmo. “Ficava o dia inteiro na mesa, sem conseguir fazer nada.” Depois que começou o tratamento de saúde, que aliava terapia com medicação, Ricardo conversou com o RH, conseguiu mudar de área e readequou as entregas. “Se a companhia compreende que precisa dar um tempo para o colaborador se cuidar, o trabalho ajuda bastante, porque te coloca em movimento. Ficar em casa sozinho só piora a sensação de vazio”, afirma Ricardo.

À base de remédios

“Durante dois anos da minha vida tomava meia garrafa de uísque e dois Lexotans por dia.” É assim que o empreendedor Paulo Mauricio Mello, de 59 anos, começa seu relato sobre a depressão.

Com uma carreira de cinco anos na área de marketing em empresas de telecomunicações e cansado do mundo corporativo, em 1987 ele abriu a própria empresa. Mas, até em seu projeto pessoal, a pressão e as contradições do ambiente corporativo persistiam. “Comecei a me dopar para aguentar a rotina de um trabalho no qual eu não acreditava. Mesmo com a empresa indo bem, rodeado de pessoas em eventos e reu­niões, eu me sentia sozinho”, diz Paulo. “Sucumbi, parei de acreditar em ter um propósito e passei a buscar formas de escapar daquela frustração.” Depois de anos com essa combinação fatal, em 1998 Paulo teve um colapso neurológico. “Além da depressão, o uso excessivo de remédios e álcool me levou a um es­tado em que eu tremia o tempo todo.”

Ele não con­seguia mais trabalhar —perdeu a empresa e passou quase 11 meses em casa, em um estado que descreve como vegetativo. “Os médicos disseram que eu não teria mais uma carreira”, afirma. Com ajuda de terapia, coaching, medicação e apoio da família, Paulo aos poucos voltou a ter uma rotina normal. “Comecei dando pequenos passos. Primeiro ia do sofá até a porta da sala. Depois, passei a descer até a frente do prédio. Uma vitória enorme foi quando consegui pegar o carro e levar meu filho ao colégio.”

Como as contas estavam no vermelho, quando se sentiu melhor, Paulo teve de retornar ao mundo corpo­rativo, como diretor de mar­keting de uma empresa de te­le­co­municações. Mas, após algum tempo, os sinais da depressão voltaram a aparecer. Temendo que outra crise se abatesse sobre ele, em 2005 Paulo largou o cargo e passou a se dedicar à carreira de coach, que já praticava informalmente.

Profissionalizou-se e, atualmente, coordena uma consultoria que combina o aconselhamento de carreira com técnicas como acupuntura e meditação. “Encontrei meu propósito, que é ajudar as pessoas, e não tive mais crises.”

Casos como o de Paulo, de pessoas que se automedicam ou recorrem ao álcool e outras drogas para enfrentar o dia a dia, são mais comuns do que se imagina e elevam o risco de doenças mentais.

De acordo com uma pesquisa da International Stress Management Association no Brasil (ISMA-BR), com 1 000 profissionais de São Paulo e Porto Alegre, no ano passado 57% dos trabalhadores tomavam remédios autoprescritos e 53% consumiam bebidas alcoólicas para se anestesiar do estresse do trabalho.

A medicação, embora fundamental para o tratamento, precisa ter orientação médica e ser combinada com outros métodos, como terapia, atividades físicas e grupos de apoio. “Alguns remédios têm alto risco de causar dependência. Muitos pacientes exigem respostas rápidas dos médicos e querem logo uma receita, mas é preciso entender que o tratamento é de longo prazo”, diz Daniel Elia, consultor da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (Opas/OMS) no Brasil.

E, para ajudar a superar a batalha que é o tratamento de uma doença mental, os especialistas são unânimes em dizer que é preciso ter acolhimento não só da família mas também de chefes, colegas e empresa.

Tratar o problema com seriedade (e humanidade) ajuda os profissionais que sofrem com o problema a não se sentirem estigmatizados e as companhias a diminuir os custos com saúde. É uma relação em que todos ganham. Por isso, já passou da hora de a depressão deixar de ser um tabu no local de trabalho.

Fonte: EXAME

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