O momento de pedir aquele aumento de salário tão sonhado pode ser considerado o mais delicado para o profissional dentro da empresa, porque envolve não somente coragem, mas principalmente argumentação para convencer o chefe de que ele está merecendo ganhar mais. No entanto, para que esse reconhecimento se concretize, é preciso avaliar o trabalho que vem sendo desempenhado, a situação da empresa, como estão os salários do mercado compatíveis com a função e até o humor do chefe.
Os consultores de carreira Max Gehringer e Roberto Recinella dão dicas do que dizer e em qual circunstância ou melhor momento. E alertam: não adianta fazer drama ou alegar motivos pessoais, o popular “mimimi”: é preciso justificativas embasadas na produtividade para fazer o pedido.

MOTIVOS
Posso alegar motivo pessoal, como por exemplo, o salário não supre minhas despesas pessoais, acabei de ganhar filho ou minha mãe está doente?
Max: Não. Talvez empresas devessem ser mais compreensivas em situações como essas, mas infelizmente elas não são. Uma empresa se mostra disposta a considerar um aumento quando sente que o problema é dela. Casos pessoais são problemas criados pelo próprio funcionário e portanto cabe a ele resolvê-los, não à empresa. Além disso, empresas evitam criar precedentes. Se um aumento fosse concedido a um funcionário que não consegue pagar a prestação do carro, todos os outros funcionários em situação semelhante iriam usar o mesmo argumento.
Recinella: Não. Isso só demonstra que, se você não sabe administrar seu dinheiro, também não saberá administrar o da empresa. Só apresente fatos profissionais de seu desempenho que justifiquem um aumento.

Pode alegar muito tempo de casa e nunca recebi aumento?
Max: Sim, desde que outros funcionários do mesmo setor tenham recebido aumentos nos últimos 12 meses. Se ninguém recebeu, o pedido deve ser feito em grupo, porque negar uma solicitação coletiva será bem mais difícil para o chefe do que negar para um só.
Recinella: Não. Já passou a época em que o tempo de casa refletia em aumento. Hoje a moeda de troca é competência e resultados.
Posso alegar recebimento de proposta de outra empresa? Falo o salário oferecido?
Max: Sem dúvida. Esse é o caso clássico em que o problema passa a ser da empresa. Ela sabe que contratar um novo funcionário, treiná-lo, e depois esperar que ele se adapte e deslanche, sairá muito mais caro do que conceder um reajuste a quem já conhece o trabalho. De todos os motivos para conseguir um aumento, uma proposta de outra empresa é o que mais funciona.
Recinella: Mesmo que você tenha liberdade com seu superior, pode parecer chantagem. Se ele se sentir à vontade, tentará cobrir a oferta. Mas, cuidado! Não faça isso como manobra para receber aumento, pois um dia será descoberto e isso se voltará contra você.

Posso justificar a entrada de alguém no setor ganhando mais que eu?
Max: Sim. Legalmente, funções iguais devem ter salários iguais. Aí nem seria um pedido, seria uma solicitação para que a lei fosse aplicada. Caso mesmo assim a empresa responda que não, o funcionário poderá um dia entrar com uma ação trabalhista e receber a diferença.
Recinella: Pode, desde que você consiga justificar que sua formação ou resultados são superiores ao dessa pessoa e por isso você merece uma equiparação.

Trabalhador tem dificuldades para pedir aumento; veja no vídeo ao lado
Posso justificar a promoção de outro colega com menos tempo de casa que eu?
Max: São raras as empresas que promovem alguém apenas pelo tempo de casa. Há muitos outros fatores envolvidos numa promoção. Nesse caso, vale a pena perguntar “por que ele e não eu” para entender quais foram os motivos e se preparar para ser lembrado em uma próxima promoção.
Recinella: Cuidado! Muitas vezes esse colega foi promovido por apresentar competências e resultados superiores aos seus. Tempo de casa simplesmente não é motivo para aumentos. Analise bem a questão antes de ouvir o que não quer.
Tenho que aproveitar o fato de a empresa passar por bom momento? E se for o contrário, espero a situação melhorar?
Max: Qualquer empresa se sentiria mais confortável concedendo reajustes quando a situação financeira é boa e o mercado está a favor. Se a situação for ruim, essa já será a desculpa para negar o pedido e solicitar a compreensão do funcionário.
Recinella: Em momentos de crise, a palavra aumento de salário muitas vezes não é bem vista. Na época das vacas gordas, é mais fácil convencer seus superiores acerca de suas qualidades e eles não terão a crise, como desculpa, na ponta da língua.

Quais os motivos considerados “plausíveis”, na sua opinião?
Recinella: Competência, comprometimento e resultados que possam ser comprovados. Vale também uma pesquisa de salários do mercado compatíveis à sua função que demonstre que o seu está defasado. Mas atualmente a maioria das empresas possui um plano de cargos e salários, ou pelo menos deveria ter, permitindo que você saiba das regras e metas que deve atingir para ser promovido ou ter aumentos. Estude-a e alinhe seus esforços para atingir seus resultados. Com isso, seu aumento estará garantido no ano seguinte.

ABORDAGEM
Em que momento abordar a chefia?
Max: É preciso entender a pessoa a quem será feito o pedido. Existem chefes que chegam de excelente humor pela manhã, e existem outros que parecem ter caído da cama. O momento apropriado é quando o chefe está de bem com a vida.
Recinella: Não existe receita de bolo, pois cada um conhece o chefe que tem, mas vale estar atento ao humor e resultados da empresa. Tente agendar uma conversa em que você não possa ser interrompido e se prepare com números e dados da sua “performance” para justificar o seu aumento.

Como faço a abordagem? Telefone, email, pessoalmente, chamo para reunião, para almoço, para um café, falo com ele na happy hour?
Max: Sempre que possível, pessoalmente. Só deve usar telefone ou e-mail quem trabalha em outra cidade e passa meses sem ver o chefe direto. Quanto a almoço ou café, eu não acredito que um chefe aceitaria um convite desses sem saber o motivo. O melhor lugar para conversar é mesmo na sala do chefe.
Recinella: Agende uma reunião formal em que não possa ser interrompido. Seja direto e conciso.

Falo com o chefe direto ou o acima do meu chefe direto?
Max: Não é uma boa ideia atropelar a hierarquia. Quando isso acontece, o chefe do chefe vai transferir o problema de volta para o chefe direto, que se sentirá magoado, quando não ofendido. Por isso, o mais indicado é sempre começar pelo chefe direto.
Recinella: Nunca passe por cima de sua chefia, essa é uma regra da etiqueta corporativa. A única exceção é se ele for um incompetente reconhecido. Neste caso, agende uma reunião com os dois juntos.

O QUE DIZER
Como começo a conversa?
Max: Sem enrolar. É preciso dizer imediatamente que o motivo da conversa é um pedido de aumento. Há quem acredite que irá suavizar a conversa se começar perguntando ao chefe como vão as coisas, a família e o time de futebol dele. Ocorre o contrário. A cada minuto de banalidades, o chefe irá ficando cada vez mais indócil.
Recinella: Faça um breve histórico de sua carreira e conquistas, relembre resultados, desafios superados, projetos implementados e comprometimento. Enfim, mostre a sua importância na empresa.

Devo ser polido, assertivo, agressivo no meu pedido?
Max: Agressividade raramente funciona. A não ser que o chefe seja um banana, ele responderá no mesmo tom agressivo e o que poderia ser uma conversa civilizada terminaria antes mesmo de começar. Mas o funcionário também não deve se fazer de coitadinho. A melhor abordagem é num tom de voz seguro, e falando apenas o indispensável.
Recinella: Polido e assertivo. Evite manobras agressivas. Chantagens geralmente são malvistas e não surtem resultados

E se eu receber um não? Como devo proceder?
Max: Não é sábio sair irritado, chutando o cesto de lixo ou batendo a porta. A sugestão é agradecer a atenção do chefe e solicitar que ele passe objetivos para os próximos meses que, se cumpridos, possam resultar em um aumento. Chefes são especialistas em negar aumentos, mas são mais receptivos a quem pede oportunidades para consegui-los.
Recinella: Vá preparado para um não. Se receber, peça, educadamente, a justificativa para a negativa e pergunte o que você deveria fazer para receber o seu aumento.
E se a proposta for ruim? Posso fazer uma contraproposta?
Max: Pode, desde que os argumentos sejam convincentes. Se a empresa me deu 5 e eu acho que mereço 10, preciso mostrar como esse custo extra será recuperado. Apenas dizer “acho pouco” é um argumento muito precário.
Recinella: Claro, pois você está negociando. Utilize todos os seus recursos, demonstre seu valor e lembre-se sempre: tenha dados concretos para apoiá-lo.
E se a chefia pedir um tempo para analisar meu pedido?
Max: Diga “Perfeito, chefe. Muito obrigado. Quando voltamos a conversar?”. Ele responderá “Eu lhe chamo quando tiver uma resposta”. O tempo de espera é de no máximo 15 dias. Se nada acontecer nesse período, é só bater na porta do chefe e perguntar se há alguma novidade.
Recinella: Respeite isso. É bem provável que aconteça, pois muitas vezes a decisão não cabe somente a ele, mas saia com uma data para receber a resposta.

VALOR
Posso citar valores ou deixo a critério do empregador?
Max: Quem pede um aumento precisa mais de números concretos do que de uma boa conversa. É importante levar dados que demonstrem ao chefe um aumento de produtividade, ou de vendas, ou de economias feitas. Nesse caso, os cálculos devem ser deixados com o chefe, e a resposta nem precisa ser imediata. Nunca conheci um chefe que fosse capaz de brigar com números impossíveis de serem refutados, porque o chefe sabe que corre o risco de perder o funcionário caso resolva se fingir de morto.
Recinella: Pode, mas deixe isso a critério do empregador. Às vezes você pode ser surpreendido com uma proposta acima do que havia pensado. Caso isso não ocorra, negocie e lembre-se de que aumento não se limita apenas ao salário: melhora os benefícios e também impacta em seus ganhos.
Qual o mínimo e o máximo recomendado?
Max: Entre 5% e 20%. Pedir menos que 5% não paga nem a conversa. Pedir mais que 20% assustará o chefe. Um aumento que corresponda ao dobro da inflação anual, ou seja, algo entre 10% e 12% atualmente, já será uma bela conquista.
Recinella: Não existe receita de bolo. Vá com a mente e o coração abertos para negociar e lembre que, muitas vezes, a empresa possui um plano de cargos e salários. Use-o em seu beneficio.
Tempo de casa simplesmente não é motivo para aumentos. Analise bem a questão antes de ouvir o que não quer.”
Roberto Recinella
E se a empresa oferece menos que o esperado?
Max: Aceite, agradeça, e prepare-se para voltar à carga em 6 meses.
Recinella: Negocie, seja criativo, sugira melhoria em seus benefícios (vale-refeição, plano de saúde e odontológico, auxílio-medicação etc.). Salário não é só o que você recebe no final do mês.

SITUAÇÕES
Devo esperar um dia em que o meu chefe esteja de bom humor para pedir aumento?
Max: Sim! Pedir quando ele está de mau humor só irá piorar o humor dele.
Recinella: Não necessariamente, mas isso sem duvida facilita, o importante é se preparar e sentir o melhor momento para falar com o seu chefe. Nada substitui o bom senso.

Devo aproveitar o dia em que algum projeto ou ideia minha forem aprovados/aproveitados/elogiados?
Max: Muitos chefes evitam elogiar seus subordinados exatamente por temer que eles usem isso para emendar de primeira um pedido de aumento. O mais indicado é agradecer o elogio, dar um tempinho de 15 dias, e aí se munir de dados para abordar o chefe. A menção ao elogio recebido nem será necessária, porque o chefe se lembrará do que disse, a não ser que ele sofra de amnésia.
Recinella: Cuidado ao usar a estratégia da emboscada é arriscada, não faça isso no mesmo momento, mas aproveite para agendar uma conversa e use isso a seu favor, assim você não corre o risco de ser oportunista, ou seja, basta um elogio e isso já significa um aumento ou mimo. Lembre-se: surpreender sua empresa com ideias e projetos faz parte da sua obrigação.

Fonte: G1

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