As eleições nos Estados Unidos da próxima terça-feira (8) definirão se a democrata Hillary Clinton ou o republicano Donald Trump assumirá a Casa Branca após oito anos do governo de Barack Obama. As propostas dos dois principais candidatos podem apontar para rumos distintos para os EUA, mas no Brasil o resultado não deve ter impacto significativo, segundo especialistas ouvidos pelo G1.

Isso porque o atual relacionamento entre os EUA e o Brasil é considerado raso, e o nosso país não está entre as maiores preocupações de Washington. Por outro lado, um aprofundamento nas relações seria possível dependendo do esforço que o governo brasileiro fará para se aproximar dos EUA.

Exemplo de que o Brasil é pouco significativo para os EUA no momento é o fato de que o maior país da América Latina não é citado nos programas de governo de nenhum dos dois candidatos, o que torna ainda mais difícil prever possíveis mudanças por aqui.

Os especialistas concordam que uma eventual vitória de Hillary seria uma continuidade da atual postura norte-americana em relação ao Brasil. Já no caso de Trump conquistar a Casa Branca, fica mais difícil fazer uma previsão. É possível que as relações sigam iguais ou que haja alguma mudança no que diz respeito à imigração e ao comércio exterior dos EUA.

“Acho que a escolha fica entre o status quocom Hillary e talvez algum tipo de mudança com Trump, mas provavelmente não tanta mudança como ele acha ou como diz”, diz ao G1 Matthew Taylor, cientista político da American University, em Washington.

Brasileiros nos EUA
O debate sobre imigração nos EUA pode afetar os brasileiros que vivem ou que fazem planos de se mudar para os EUA.

A democrata Hillary promete uma reforma imigratória que buscará regularizar imigrantes ilegais que trabalham e pagam impostos e que não cometem crimes no país. Também defende acabar com a separação de pais e filhos promovidas atualmente por algumas leis de migração.

Trump tem propostas como a deportação de milhões de imigrantes ilegais, a suspensão da imigração de alguns países, a aplicação de um exame ideológico aos que querem migrar pata o país e, a mais famosa, a construção de um muro na fronteira dos EUA com o México – que seria pago pelo país latino-americano – para impedir a entrada de imigrantes.

Trump exibe desenho de muro que promete construir na fronteira com o México para proibir a entrada de imigrantes durante comício nesta quarta-feira (9) em Fayetteville, na Carolina do Norte (Foto: REUTERS/Jonathan Drake)Trump exibe desenho de muro que promete construir na fronteira com o México para proibir a entrada de imigrantes durante comício na Carolina do Norte (Foto: REUTERS/Jonathan Drake)

Alguns especialistas, como Taylor, desconfiam de que o programa do republicano não funcione na prática. “Suspeito que mesmo que Trump ganhe seria muito difícil para ele passar um programa de imigração do tipo que ele pensa, que ele deseja. Há razões de negócios por que a plataforma de imigração que ele está executando é irrealista. Parece-me que o que temos visto da campanha de Trump vai provavelmente ficar restrito à campanha”, diz.

Ao considerar um cenário em que tudo que é dito na campanha presidencial seja colocado em prática, os brasileiros em situação irregular nos EUA poderão ser afetados. “Trump tem como bandeira esse endurecimento na política de imigração. [A relação com o Brasil] poderia ser afetada por uma mudança de imigração [dos EUA] e consequentemente algumas deportações. Com Trump há uma possibilidade de relação um pouco mais tortuosa. Mas não significa que será caótica, de afastamento abrupto”, diz Fernanda Magnotta, coordenadora do curso de Relações Internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap).

Protecionismo comercial
No quesito comércio exterior, Hillary e Trump têm propostas um pouco parecidas, mas o discurso de Trump é mais agressivo. Eles defendem políticas comerciais mais restritivas e a taxação de competidores desleais fora do país.

Trump defende uma política mais isolacionista e protecionista da indústria nacional, com aumento dos impostos de empresas que deixarem o país ou que não empregarem americanos preferencialmente. Diversas vezes durante a campanha o empresário repetiu que países como China e México “roubam” empregos e indústrias dos EUA e ameaçou taxar produtos chineses.

“Em relação a diversas regiões do mundo o que se pode esperar [de Trump] é o afastamento dos EUA. A ideia é fechar ao máximo o país para garantir desenvolvimento doméstico. Ele transmite a ideia de que prefere os EUA desassociados à lógica de globalização que conhecemos”, diz Fernanda.

Os dois candidatos são contra a Parceria Transpacífica (TPP, na sigla em inglês) – apesar de Hillary, como secretária de Estado, ter ajudado o presidente Obama a negociá-lo. O acordo irá cortar barreiras comerciais em 12 países, entre eles EUA e Japão. Caso seja ratificado, poderia impactar 40% da economia global, segundo projeções feitas à época em que foi assinado.

Liderança na América Latina
Mudanças mais profundas na relação com EUA dependem mais do esforço e o interesse que o Brasil mostrar. E uma oportunidade para se alcançar uma relação mais próxima seria desempenhar um maior papel de liderança entre os outros países da América Latina.

Hillary apareceu no fim do discurso de Obama para saudá-lo na convenção democrata (Foto: Lucy Nicholson/Reuters)Hillary Clinton e Barack Obama durante a convenção do Partido Democrata que confirmou sua candidatura à presidência (Foto: Lucy Nicholson/Reuters)

Para Carlos Pio, cientista político e professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), uma novidade nessa relação depende mais do contexto latino-americano do que quem será o novo presidente nos EUA. Ele diz que o resultado das eleições norte-americanas “não terá impacto nenhum no Brasil” e que uma aproximação “depende muito do que o Brasil for chamado a desempenhar, o que só vai acontecer se tiver algum problema na região”.

Pio cita a liderança do Brasil na missão de paz da ONU no Haiti, por meio da qual enviou tropas em 2004 para ajudar na estabilização do país caribenho, e o engajamento brasileiro “para de certa forma suavizar a situação na Venezuela” durante o governo Obama.

Matthew Taylor, da American University, diz que do ponto de vista americano essa liderança seria muito bem-vinda. “Os Estados Unidos não tem demandado investir muito tempo em aprofundar a relação, em parte porque não vê que ganhos poderiam sair dela no curto prazo”, afirma. “Os EUA ficariam satisfeitos se o Brasil liderasse os esforços em impulsionar a Colômbia ou a Venezuela em direção à resolução de seus problemas. Seria de muita ajuda aos EUA, porque têm enfrentado muita resistência quando se envolve na América do Sul”, acrescenta.

Esse papel de um importante ator regional deve ser mais facilmente assimilado por Hillary, na avaliação de Fernanda Magnotta, da Faap. “Baseado em sua experiência como secretária de Estado, percebe-se que tudo que foi feito na região tinha como caráter garantir estabilidade local”, diz. “Hillary provavelmente incorporaria a ideia de que o Brasil é um ator regional importante, mas ator global limitado. Ela dá a devida importância ao Brasil dentro do contexto sul-americano, mas dificilmente vai defender ou ajudar a propagar interesses do Brasil de maior alcance, como por exemplo o assento no Conselho de Segurança na ONU”, afirma.

Para mostrar interesse e passar confiança em sua imagem internacional, os especialistas concordam que o Brasil deve primeiro fazer a “lição de casa”, resolvendo problemas internos como a instabilidade política e econômica.

 Fonte: G1 

 

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