Tatuar a própria pele é uma forma de expressão bem antiga, presente e admirada em muitas culturas pelo mundo. Mas a relação das pessoas com os desenhos corporais, especialmente no ambiente de trabalho, nem sempre foi muito amistosa. Não faz muito tempo que ter uma tatuagem não era algo bem visto pela maioria dos recrutadores e das empresas. Hoje, ainda que aos poucos, percebemos que o tabu e o preconceito vêm perdendo força. No entanto, sob o aspecto profissional, será que a opinião das empresas com relação às tatuagens realmente mudou?

Para a coach e headhunter da Neoplan RH Maria Almeida Garcia, ter as tatuagens aceitas ou não por seu empregador depende principalmente da cultura organizacional da empresa, ou seja, da imagem que ela comunica para seus funcionários, clientes e parceiros. “Ao profissional, cabe, em primeiro lugar, estar ciente daquilo que se quer comunicar e isso inclui a tatuagem. Mas ter a tatuagem aceita no trabalho depende da cultura organizacional da empresa e esse aspecto também determina se o que prevalece é a competência técnica e comportamental em detrimento ao aspecto físico”, diz Maria.

Segundo a coach, a área de atuação da empresa ou do profissional também indica se as tatuagens são bem-vindas. “Segmentos mais formais geralmente buscam ter em seu quadro de colaboradores pessoas afins, já empresas da área da cultura, beleza, tecnologia, indústria, comunicação e comércio podem utilizar-se de profissionais que têm tatuagem até para atrair seus clientes”. Já em segmentos mais conservadores, os desenhos ainda podem ser vistos com ressalvas.

Maria também revela que as empresas ficam atentas às tatuagens até mesmo durante os processos seletivos. E, para evitar conflitos, ela recomenda que as empresas esclareçam qual é a cultura interna, antes mesmo da contratação. No caso de profissionais contratados, a organização deve deixar claro qual é o impacto que isso pode ter na carreira do funcionário.

Conheça seus direitos

O advogado trabalhista do Marins Bertoldi Advogados Associados Bruno Michel Capetti explica que a questão envolvendo a imagem do trabalhador é um dos assuntos mais polêmicos das relações de trabalho, no entanto, não há uma regra específica sobre o assunto em nossa legislação. “Não há regramento legal para o tema, nem mesmo nos Tribunais Superiores, apesar das comuns e recentes discussões neste sentido. O que se observa apenas é a preocupação da própria Constituição Federal, no artigo 5º, em propiciar e valorizar um tratamento pautado na igualdade, na dignidade da pessoa humana e no valor social do trabalho, cabendo uma interpretação ampla para evitar ocorrências de discriminação no ambiente de trabalho”.

Sobre uma proibição de exibir seus desenhos corporais durante o trabalho, ele diz que alguns aspectos podem ser levados em conta pelo empregador e exigidos do empregado quanto à sua apresentação pessoal, pautados no código interno da própria empresa. “Não existe uma definição legal ou um critério objetivo a ser seguido pelo empregador, de modo bastante prático, mas não se justifica que o empregador exija do funcionário que esconda as suas tatuagens no trabalho”.

Seguindo este mesmo raciocínio, Capetti afirma que, na prática, uma pessoa não pode deixar de ser contratada ou ser demitida apenas por possuir tatuagens. “A contratação depende do mútuo consentimento das partes envolvidas, razão pela qual o empregador pode, no momento da contratação, traçar um perfil de candidato que atende às suas expectativas e evitar a contratação daquele que não atende às características esperadas para a vaga de emprego. Quanto à demissão, o fato de o empregado realizar uma tatuagem, isoladamente, não se enquadra no rol de hipóteses de rescisão por justa causa do artigo 482 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT,)”.

Sem conflitos

Algumas profissionais podem passar por constrangimentos ou olhares de reprovação de chefes, colegas e clientes, mas esse, definitivamente, não é o caso da coordenadora administrativa da área da saúde Waleska Pedroso, de 33 anos, que tem seis desenhos espalhados pelo corpo. Ela conta que, em sua carreira, nunca enfrentou problemas ou percebeu algum tipo de estranhamento por parte das outras pessoas.

“Trabalho na área da saúde e lido muito com o público. Tenho duas tatuagens nos punhos, uma no braço, uma no ombro, uma na barriga e as minhas sobrancelhas, que também são tatuagens, foram feitas com microdermopigmentação. E é justamente sobre elas que as pessoas mais querem saber. Percebo que muita gente gosta das tatuagens e até pedem para vê-las”, relata Waleska.

Ela acredita que ser tatuada não interfere na qualidade do trabalho desempenhado. “Não são as minhas tatuagens que fazem com que eu seja uma grande profissional. Não é uma tatuagem que forma um grande caráter e não é um simples desenho no seu corpo que te deixa mais ou menos capaz de fazer algo”.

Fonte: Tribuna

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