Para especialista, tendência do home office só deve aumentar

Por Murilo Aguiar

Antes de começar a trabalhar de casa, Carla Cerqueira já imaginava que a rotina deveria ser melhor do que a de um escritório. Conseguir fugir do trânsito, não precisar correr para chegar no horário e apenas se preocupar em entregar os resultados.

No entanto, em dezembro do ano passado, quando finalmente começou a trabalhar no esquema de home office, ela viu que as vantagens eram maiores do que esperava. “É muito mais que isso. Conviver com a rotina do meu filho, da minha família, entre uma reunião ou outra eu saber o que está acontecendo, poder levar e buscar na escola, isso não tem preço”, comenta.

Gerente de negócios da Ticket, empresa de benefícios ao trabalhador, Carla conta que o fato de a companhia oferecer home office para a área comercial foi decisivo para deixar o antigo emprego. “No lugar em que eu trabalhava há 6 anos eu tinha alguma flexibilidade, mas quando eu tive oportunidade de ir para a Ticket, o que mais me chamou a atenção foi o modelo de trabalho. Não foi remuneração, nem benefício”, diz ela, que notou melhora até mesmo na rotina alimentar.

Segundo o headhunter Felippe Virardi, da empresa de recrutamento Talenses, a maior qualidade de vida que o sistema oferece se tornou uma vantagem para as grandes companhias no momento de selecionar os melhores profissionais do mercado. “Eu nunca tive um caso em que a pessoa recusou o home office, muito pelo contrário. Ter essa política é até uma estratégia de atração e retenção para as empresas”, conta.

Assim como a gerente, a Ticket tem outros 160 colaboradores trabalhando de casa. Arnaldo Moral, gerente de Recursos Humanos, conta que a implementação total do modelo levou cerca de cinco anos. Ao final, em 2005, a companhia conseguiu eliminar todas as suas filiais físicas e manter apenas as sedes e regionais.

Para isso, eles investiram em tecnologia, computadores e novos sistemas de comunicação entre a equipe de vendas e seus gestores. “Um dos maiores desafios foi como criar uma infraestrutura boa para o colaborador trabalhar e ter sua base, que é sua casa. Por isso, a gente criou uma estrutura, um espaço físico mesmo na casa dele, com mesa, cadeira, materiais de escritório”, conta Arnaldo.

Além disso, eles providenciaram computadores, impressoras, internet banda larga e também pagam 50% da conta de energia elétrica dos funcionários home office.

Os benefícios para a empresa também foram grandes. A Ticket conseguiu reduzir em torno de R$ 3,5 milhões em estruturas, com prédios, aluguel, impostos e tudo o que envolvia o físico das filiais; registrou aumento médio de 1,5 visita por dia a clientes, ou 1.770 ao mês; e teve crescimento de 40% no volume de vendas novas e incremento de 76% na receita proveniente dessas vendas.

“É inquestionável que quando a sua qualidade de vida melhora, a sua disposição e satisfação melhora. Faz muita diferença para o colaborador tomar o café da manhã com a família e já entrar no escritório dele calmamente, para começar o dia mais concentrado e inteiro”, observa Arnaldo.

Nem tudo é perfeito

Apesar das diversas vantagens, trabalhar de casa também oferece desvantagens para o profissional. Primeiro, a pessoa precisa se adaptar a dividir o seu local de trabalho com todas as distrações em casa, que vão desde o televisor até mesmo pessoas com quem mora. Além disso, é preciso criar uma rotina ainda mais organizada e ser mais disciplinado para executar todas as tarefas sem a constante supervisão dos chefes quando se está em um escritório.

“Não é 100% da massa que está pronta para fazer home office. É muito fácil você se perder em questões domésticas e pessoais. É preciso manter uma organização e foco muito grande”, avalia Virardi. “Você tem de ter uma organização não só de tarefas, mas lembra que apesar de estar em casa, você não deixa de estar trabalhando, e ter também um auto controle e saber gerenciar o tempo.”

Segundo o headhunter, a queixa mais comum entre os profissionais que trabalham em casa é que eles passam mais tempo trabalhando do que se estivessem no escritório, com o horário certo para entrar e sair.

Carla é um destes profissionais. “A gente nunca desliga. Você está em casa, está com o computador na frente, se tem uma brecha e você sabe que tem algo para resolver, a gente acaba se dedicando. Às vezes, eu coloco meu filho para dormir às 21h e volto para o computador, o que eu não faria se estivesse no escritório. Eu tenho certeza que eu trabalho muito mais hoje”, conta.

Outro fator a ser levado em consideração antes de a pessoa aceitar uma oportunidade de trabalhar em casa é o fato de não ter a convivência com os colegas. Para os mais introvertidos, isso pode parecer uma vantagem, mas com o tempo a falta de contato com a equipe pode incomodar.

“Eu sinto muita saudade daquele momento café depois do almoço. Fui até obrigada a comprar uma cafeteria expressa para mim”, brinca Carla. “Não ter esse dia a dia com seus colegas de trabalho realmente é um baque grande para quem está acostumado a trabalhar em escritório.”

Para amenizar essa questão, a Ticket promove reuniões mensais entre as equipes de vendas e seus gestores. Além disso, eles têm sistemas de reuniões virtuais para ficarem permanentemente em contato. Também há, anualmente, uma convenção de vendas com os colaboradores, o encontro anual de home offices e a festa anual de final de ano, com toda a organização.

Apesar das desvantagens, Felippe Virardi vê que a tendência do home office só deve aumentar. “Cada vez mais, não só os profissionais, mas as empresas também têm de amadurecer para esse modelo”, comenta.

Fonte: iG

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